Destaque
Valter Fernandes
24 de outubro, 18h00
Quando lançados à imprevisibilidade de um labirinto, a perspetiva dissipa-se. Além de suas paredes, não vemos mais do que uns quantos passos à nossa frente. O corpo solitário perde-se nas dobras do próprio labirinto, uma espécie de narciso invertido que se desapaixonou pelo seu reflexo e mergulha nas águas do inconsciente num diálogo com a sombra que habita no fundo desse lago.
A discussão sobre a perspectiva dentro do labirinto destaca a limitação da visão quando imerso na experiência. No entanto, a possibilidade de sobrevoo sugere uma compreensão mais clara e organizada, evidenciando que uma mudança da mesma pode revelar uma arquitetura de sentido.
A saturação e sobrecarga de informações e estímulos, podem levar, por vezes, a uma exaustão e sensação de nos encontrarmos perdidos como num labirinto, impulsionando-nos a agir de forma cada vez mais automatizada e inconsciente. Guardamos e acedemos a esses automatismos e padrões através da memória, que tem esta dualidade de nos moldar assim como se tornar força capaz de desconstruir esses hábitos através da sua consciencialização. Um desafio ao ato de desmantelamento da cristalização padronizada em prol de um corpo em metamorfose, que se compõe e se desfragmenta ao longo do tempo, procurando resistir a essa padronização, explorando uma identidade em constante transformação.
Katábasis, define a ação de descida ao submundo. Na procura dessa descida que se altera entre o reconhecimento do espaço interior (corpo) e exterior (lugar que o corpo ocupa) a atenção é estimulada a permanecer nesse limbo e, por esse motivo, o intérprete encontra-se numa escuta que o mantém sensível não só a si , mas também ao seu redor, possibilitando o relacionamento entre matérias e permitindo-se imaginar possibilidades de relação e metamorfose.
“Ele vê-se vendo, toca-se tocando, é visível e sensível para si mesmo. (...) um si portanto, que se compreende no meio de coisas, que tem um verso e um reverso, um passado e um futuro...” - Merleau Ponty
Ana de Oliveira e Silva e Dinis Duarte
24 de Outubro, 18h00
Num laboratório, forma-se uma nova ordem, onde o altruísmo é lei biológica. Este sistema é guiado por regras simples e rígidas. Não há competição nem ambição, apenas função e repetição. Cada corpo age para servir algo maior do que o próprio. O stress é visto como avaria — uma ameaça ao funcionamento coletivo. Quem perde o ritmo não é castigado: simplesmente deixa de fazer parte do ciclo. A performance existe dentro deste laboratório vivo, onde o corpo é ferramenta e matéria. O movimento nasce da repetição e da necessidade de manter o fluxo contínuo. Cada gesto tem um propósito. Cada ação deixa um rasto. Entre o controlo e a falha, este espaço vivo tenta organizar-se, mesmo quando a própria organização ameaça ruir.
Daniela Cruz em co criação com Ángela Diaz Quintela e Carina Albuquerque
31 out. às 10:30 e às 15:30
- Ocelo.
- Eu sei o que isso é: são olhos coloridos que existem nas penas de algumas aves.
- Ocelo é olhar o belo.
- Ocelo é uma deusa, inventada com o mundo que trazemos dentro.
- Ocelo é uma deusa que se revela.
- Há quem diga que se pavoneia.
Ocelo é um espetáculo sensorial e multidisciplinar, dirigido ao público mais jovem, que parte da necessidade de olhar, de forma positiva, para o contexto em que vivemos e pela vontade de criar sobre o belo. Parte também da vontade de explorar o belo como um lugar onde a realidade e a nossa imaginação se encontram; o belo como uma sensação de espanto, de UAU.
- Espanto é espalhar encanto. Esp-anto.
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